CENTRO UNIVERSITÁRIO SERRA DOS ÓRGÃOS




Clima extremo: professora de Gestão Ambiental explica os impactos no Brasil e no mundo

31/07/2026 14:17:28

Uma onda de calor extrema ameaça a população do continente europeu durante o verão de 2026, especialmente em regiões florestais da Espanha e da França. Aqui no Brasil, os efeitos das mudanças climáticas também foram sentidos nesta semana, após eventos extremos em cidades do Sul e Sudeste do país.

As temperaturas atípicas começaram a ser sentidas no hemisfério norte a partir de junho, quando os europeus passaram a conviver diariamente com termômetros ultrapassando os 40ºC. Como resultado, as ondas foram acompanhadas por incêndios devastadores e tempestades violentas que deslocaram mais de 300 mil pessoas na França e Espanha.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, declarou estado de emergência climática no país, enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu o reflorestamento de áreas queimadas com espécies mais adaptadas ao clima seco e quente.

Segundo a Météo-France, serviço meteorológico do país, a França já registrou 53 ondas de calor desde 1947; sendo 28 delas nos últimos 15 anos. De forma mais abrangente, o continente europeu registra temperaturas médias 1,6 grau Celsius acima da média, ou 2,9 graus Fahrenheit, valor superior ao registrado há três décadas.

Mas a Europa não é a única a enfrentar o clima severo dos últimos tempos. Recentemente, ondas de calor também atingiram a Austrália e o Japão, deixando feridos e mortos. Tempestades de neve paralisaram os Estados Unidos e inundações devastaram o Quênia e Angola, no continente africano.

De acordo com especialistas, os países em desenvolvimento do hemisfério sul ainda são os que mais sofrem com os efeitos das mudanças climáticas.

No Brasil, não é diferente

Nesta semana, o Brasil passou a enfrentar dificuldades parecidas. Na terça-feira (28), três cidades do Rio Grande do Sul - Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho - foram atingidas por um tornado que deixou estragos e ao menos quatro feridos.

Já na quarta-feira (29), fortes rajadas de vento ultrapassaram os 100 km/h em cidades dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro provocando quedas de árvores, apagões e interrupções nos serviços essenciais.

Para a Climatempo, a ventania foi consequência do impacto da passagem de uma frente fria já prevista pelos meteorologistas. Os especialistas afirmam que ligar esses acontecimentos ao El Niño, fenômeno climático que aquece as águas e influencia a formação de tempestades em diversas partes do mundo, demandaria estudos mais aprofundados.

O papel do gestor ambiental

Com o objetivo de formar profissionais preparados para lidar com esse cenário atual e futuro, o Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso) oferece o curso de Tecnologia em Gestão Ambiental. Para refletir sobre os atuais acontecimentos e entender o papel da formação na nossa sociedade, o FesoNews conversou com Amanda Santos de Alencar, professora das disciplinas Mudanças Climáticas e Saúde e Meio Ambiente do curso.

FN: O que essa onda de calor na Europa e em outras partes do mundo revela sobre as mudanças climáticas?

AS: Esta onda de calor mostra que as mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção para o futuro e já fazem parte da realidade. Todo esse desbalanço climático faz com que eventos extremos, como ondas de calor, secas, chuvas intensas e incêndios florestais, se tornem mais frequentes, intensos e duradouros. É importante destacar que não é possível afirmar que um evento específico foi causado exclusivamente pelas mudanças climáticas. O clima sempre apresentou variabilidade natural. O que mudou é que hoje esses eventos ocorrem sobre um planeta mais quente, aumentando significativamente sua probabilidade e intensidade.

FN: Interessante. Como entender melhor a relação do clima com esses eventos extremos?

AS: Para isso é fundamental entendermos dois conceitos distintos: tempo e clima. O tempo é aquilo que sentimos no dia a dia - hoje está quente, amanhã pode chover ou fazer frio. Já o clima é o comportamento dessas condições ao longo de muitos anos, normalmente analisado em períodos de pelo menos 30 anos. Portanto, ainda teremos dias frios, frentes frias e variações naturais. O que muda é que os dias extremamente quentes estão se tornando cada vez mais frequentes e intensos.

FN: Neste sentido, as ondas de calor que acontecem na Europa e outros lugares podem também acontecer no Brasil?

AS: Embora não possamos afirmar que teremos exatamente uma onda de calor igual a observada na Europa, o Brasil já vem registrando eventos extremos de calor cada vez mais frequentes, e esse é um cenário compatível com o que os modelos climáticos projetam para as próximas décadas.

FN: Lá na Europa foram registrados muitos óbitos causados diretamente pelas altas temperaturas, além de impactos nos serviços de saúde. Como essa condição climática afeta diferentes áreas da sociedade?

AS: As ondas de calor têm um efeito cascata sobre diversos setores da sociedade. Na saúde, aumentam os casos de desidratação, insolação, problemas cardiovasculares e respiratórios, além de agravarem doenças preexistentes. Isso gera uma sobrecarga significativa nos hospitais e nos serviços de emergência. No setor energético ocorre um aumento expressivo do consumo de eletricidade devido ao uso de aparelhos de refrigeração. Na produção de alimentos, o calor intenso reduz a produtividade de irrigação e pode provocar perdas na pecuária devido ao estresse térmico de animais. Do ponto de vista econômico, há perdas de produtividade no trabalho, aumento dos gastos públicos com saúde, danos à infraestrutura e impactos em setores como turismo, transporte e seguros. Ou seja, as mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma questão ambiental e passaram a representar um importante desafio para o desenvolvimento econômico.

FN: Agora, falando sobre o curso de Tecnologia em Gestão Ambiental do Unifeso, como a disciplina de Mudanças Climáticas aborda esses tópicos com os alunos?

AS: Na disciplina buscamos mostrar que as mudanças climáticas são um tema transversal, que envolve aspectos ambientais, sociais, econômicos e também políticos. O objetivo é formar profissionais capazes de interpretar evidências científicas e transformá-las em soluções práticas para os desafios enfrentados por empresas, governos e comunidades.

FN: Assim, como um gestor ambiental pode atuar de modo a pensar soluções para mitigar o impacto das mudanças climáticas no cotidiano das pessoas?

AS: O gestor ambiental tem um papel cada vez mais estratégico porque as mudanças climáticas exigem uma atuação integrada entre diferentes áreas. Mais do que preservar o meio ambiente, o gestor ambiental ajuda a construir sociedades mais resilientes, capazes de reduzir riscos, proteger pessoas e conciliar desenvolvimento econômico com sustentabilidade. Esse é um profissional que dialoga com diferentes áreas do conhecimento para transformar informação científica em decisões concretas que melhoram a qualidade de vida da população.

Por: Raphael Branco

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